sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Pedro foi

Era um daqueles dias ensolarados comuns, em que ele não queria saber de nada. Nem ele nem ninguém na mesma idade até então. Só queria soltar pipa. A vida se resumia à esses intervalos de tempo em que ninguém percebia, mas era como a areia que escorre entre os dedos. E ainda é. Grande pequeno homem, não percebeu quando de repente se viu adulto e contas não paravam de chegar. Se lembrou do dia que estivera na escola, no último dia de aula e disse pros amigos “sentiremos saudade disso aqui”, que riram e caçoaram da cara dele. Pois bem todos sentiam, e as lembranças faziam parte da prece diária do ritmo frenético entre casa-trabalho-faculdade que enfrentava já alguns anos e tinha a leve sensação de que seria para todo o sempre. Sentia que vivia mais no metrô do que na própria casa. Sempre recebendo um hóspede novo de tempos em tempos, e que logo se tornava habitual depois de um ou dois dias. Essas viagens longas, ainda que não fossem viagens no sentido de lazer, sempre o faziam refletir. Hoje, se lembrou do dia em que era criança e de como sentiu medo, com os amigos provocando um boi jogando pedrinhas no lombo do animal. Atrás, a cerca toda emaranhada de arames farpados, quase indistinguível do mato alto do terreno. Á frente, um enorme pasto que se tornava minúsculo frente à imponência do boi. Deu risada, que chamou a atenção de uma senhora sentada a sua frente. “Certeza que me acha doido. Mas... quem não?”. Os alto-falantes chiam e por eles sai uma voz de timbre grave, feminina: “... Próxima estação: Jabaquara...” e Pedro segue o rito: suspira, olha as horas no relógio de pulso, e pensa “Bora, vai...”