terça-feira, 25 de julho de 2023

Não era peso o que eu sentia

Não era peso o que eu sentia. Era algo mais, algo que me forçava a parar com aquilo. Mas ele estava ali, parado, inerte, no canto do quarto, olhando pra parede. "Que tinha feito eu?" certeza que tava pensando. Nunca vou me esquecer daquele dia. Nunca vou me esquecer dessa hora. Lá fora a chuva caia suavemente, e o som das gotas batendo calha, ao invés da calma, ansiedade. Não era peso o que eu sentia, não era peso o que eu sentia...

quinta-feira, 16 de março de 2023

Run Joker, Run!

  Esses dias vi uma postagem no Twitter de uma filmagem dos bastidores da gravação da sequência de Coringa, provavelmente algo gravado às escondidas, de um ponto alto, muitos metros do chão. Na cena que se desenrola na rua, é possível ver o personagem de Joaquim Phoenix saindo de dentro de um carro parado no congestionamento, e alguns metros atrás dele uma figura que num primeiro olhar, já ficamos cientes de ser a própria representação caricata do Coringa que conhecemos. O que se segue é uma perseguição: Arthur num desespero frenético, trombando pelos carros e alguém que abre a porta repentinamente, até alcançar o semáforo e não ser atropelado por muito pouco. Seu algoz passa longe de alcançá-lo, porém se prestamos atenção somente à ele, o identificamos de cara: É o Coringa. Não pelas cores do paletó, mas pela forma em que corre mesmo que perseguindo, ainda parece fugir. É impossível não sentir a semelhança daquela cena que Arthur sai do metrô e vai até o banheiro. Na verdade, é muito mais latente do que uma mera semelhança: é uma cena que se repete num outro espectro da natureza doentia das duas situações, e acredito que isso deva ser em parte a intenção do diretor de causar essa sensação no espectador. Lembro que assim que vi, comentei com um amigo meu o quanto aquela "corrida desvairada" do Coringa era icônica, o quanto era característica e isso me surpreendeu muito, na verdade, o simples fato de eu ver um corte de alguns segundos e me remeter a uma reflexão sobre o quanto o filme original foi (e é!) carregado de mensagens, avisos, provocações, ora implícitas, ora explícitas, ora táteis. É sublime! 
  E confesso que sinto um certo receio á uma continuação, tanto pela ordem natural das continuações quanto pela expectativa que vem se criando em cima do todo, mas eu desejo sinceramente que consigam reproduzir algo respeitável. Eu até demorei mais do que deveria para escrever essas poucas linhas, mas eu acredito que o raciocínio não se perdeu, pelo contrário. E eu vou dormir que já passou da hora.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Pedro foi

Era um daqueles dias ensolarados comuns, em que ele não queria saber de nada. Nem ele nem ninguém na mesma idade até então. Só queria soltar pipa. A vida se resumia à esses intervalos de tempo em que ninguém percebia, mas era como a areia que escorre entre os dedos. E ainda é. Grande pequeno homem, não percebeu quando de repente se viu adulto e contas não paravam de chegar. Se lembrou do dia que estivera na escola, no último dia de aula e disse pros amigos “sentiremos saudade disso aqui”, que riram e caçoaram da cara dele. Pois bem todos sentiam, e as lembranças faziam parte da prece diária do ritmo frenético entre casa-trabalho-faculdade que enfrentava já alguns anos e tinha a leve sensação de que seria para todo o sempre. Sentia que vivia mais no metrô do que na própria casa. Sempre recebendo um hóspede novo de tempos em tempos, e que logo se tornava habitual depois de um ou dois dias. Essas viagens longas, ainda que não fossem viagens no sentido de lazer, sempre o faziam refletir. Hoje, se lembrou do dia em que era criança e de como sentiu medo, com os amigos provocando um boi jogando pedrinhas no lombo do animal. Atrás, a cerca toda emaranhada de arames farpados, quase indistinguível do mato alto do terreno. Á frente, um enorme pasto que se tornava minúsculo frente à imponência do boi. Deu risada, que chamou a atenção de uma senhora sentada a sua frente. “Certeza que me acha doido. Mas... quem não?”. Os alto-falantes chiam e por eles sai uma voz de timbre grave, feminina: “... Próxima estação: Jabaquara...” e Pedro segue o rito: suspira, olha as horas no relógio de pulso, e pensa “Bora, vai...”

domingo, 1 de janeiro de 2023

Feliz Ano Novo!!!

 Mais um ano se passou e aquela lista de metas, algumas concluídas, outras pela metade, e a maioria sem finalizar nem começar só tende a crescer. Mais um ano para refletirmos sobre nossas vidas e incertezas que pairam sobre nossas escolhas. Mais um ano para provar do gosto doce dos momentos alegres e a vida dura do trabalho diário. Mais um ano para nos encontrarmos, nos bares e mares da vida, por onde a maré nos levar. Mais um ano para fazermos aquilo em que somos profissionais natos e altamente treinados: Errar! Pois do que consiste a vida, meus amigos, senão de tentativa e erro? Do que consiste o sucesso senão de uma série de erros categoricamente sequenciados de modo que se aprimore o dito Objeto do sucesso? Errar, no sentido da palavra expressa alguém que vaga sem destino, sem direção, sem Norte.