segunda-feira, 24 de março de 2025

Periférico

      periférico

adjetivo

1.relativo à periferia.

2.que se situa na periferia.

   "bairros p."

3.anatomia geral

que está mais distante ou afastado do centro do corpo (p.ex., o sistema nervoso periférico).

4.anatomia botânica

que envolve e oculta o embrião (diz-se de perisperma).

5.substantivo masculino

informática

dispositivo ou conjunto de dispositivos que não integra a unidade central de processamento (p. ex., uma unidade de disco flexível, uma impressora etc.); equipamento periférico

 

"É o tédio que me consome", pensa Ayumi, numa tarde quente de dezembro, quando ainda acreditava que 2020 seria o seu ano – a emancipação de um sonho recente, a independência mesclada ao poder de ser e fazer ser, sentir, ir e vir. Coisas corriqueiras do passado eram agora uma realidade à parte. "Quando tudo isso passar", dizem todos. "Vamos marcar algo para quando isso tudo passar""Quando tudo isso passar, vamos viajar, vamos dar mega baladas..."

Mas o tempo é duro e mole como a ordem de alguém que só quer o seu bem – um pedido que vem daqueles que queremos sempre perto, mesmo quando eles já não sabem quem somos. E nós queremos. Ah, como queremos...

Ayumi fecha o dicionário com um baque surdo, mal disfarçando a irritação, o arrependimento quase instantâneo... O avô a chamava pela décima terceira vez em trinta minutos, suas sinapses corroídas pelo Alzheimer, no alto da impaciência dos seus 80 e tantos anos. O apartamento, pequeno, parece imenso nessas horas – um labirinto de silêncios e ausências. O ar parou. O mundo lá fora parece ter engasgado.

Ela tenta se lembrar de quando era pequena e o avô voltava das viagens à Taiwan com sacos de presentes baratos e cheios de brilho – bonecas de plástico, relógios falsos, coisas que ela amava não pelo valor, mas pelo gesto. Agora, décadas depois, tudo parece ter passado num estalo – quatro chicotadas no escuro, deixando cicatrizes com queloides que não param de crescer.

— Menina! — a voz dele vem arrastada, áspera, como se estivesse chamando por alguém que não está mais ali.

Ayumi suspira, levantando-se devagar. O chão está frio sob seus pés descalços. Entre a mesa e a poltrona do avô, há um vazio que cresce a cada dia – um abismo de coisas não ditas, de histórias que ele já não consegue contar.

— O que foi, vô? — pergunta, ajustando o cobertor sobre seus joelhos trêmulos.

Ele olha para ela sem reconhecimento, os dedos inquietos sobre um caderno gasto – um diário de viagens que ele mesmo escreveu, mas que agora é apenas um objeto estranho em suas mãos.

— Cadê o trem? — ele insiste, os olhos vidrados. — Preciso voltar.

Voltar. A palavra queima. Todo mundo quer voltar – a um tempo sem máscaras, a beijos roubados em festas, a planos que não precisavam ser sussurrados como segredos. Mas o avô quer voltar para um lugar que talvez nunca tenha existido, ou que exista apenas nos fragmentos de uma memória que escorre pelos dedos.

— Já chegamos — ela mente, apontando para a janela, onde o céu escurece em tons de púrpura e ferrugem.

Ele franze a testa, mas acena, cansado de lutar contra a névoa que lhe rouba o passado.

À noite, quando ele finalmente dorme, Ayumi abre o dicionário novamente. Periférico: que está à margem, distante do centro. Ela pensa no ano que a deixou à deriva, nas promessas que viraram pó, no avô que desaparece um pouco a cada dia. E, no caderno dele, entre páginas de destinos esquecidos, ela escreve:

"2021 não precisa ser o centro. Só não pode me deixar tão longe de mim outra vez."

 

O despertador toca às 6:17 da manhã, como sempre. Ayumi abre os olhos antes mesmo do bip final - seu corpo já não precisa do som para saber que outro dia começou. O mesmo. Sempre o mesmo.

Ela rola na cama e encara o teto. Há uma rachadura no gesso que parece crescer um pouco a cada dia, como se o apartamento também estivesse cedendo ao peso do tempo. Do quarto ao lado, o avô ressona em ritmo irregular. Um dia, ele vai acordar e não vai mais respirar. Essa ideia deveria assustá-la, mas hoje só parece mais uma verdade cansada.

No banheiro, a água gelada do chuveiro a faz cerrar os dentes. "Isso acorda", ela pensa, enquanto esfrega a pele até ficar vermelha. Mas nada realmente acorda - nem o café amargo, nem o avô que agora a chama de "mãe" quando confunde os dias.

— Você não é a minha filha? — ele pergunta, numa nova confusão, os olhos úmidos e perdidos.

Ayumi engole o gole de café que queima sua língua.

— Sou a Ayumi, vô. Sua neta.

Ele balança a cabeça, frustrado.

— Não, não... você é a Keiko. Cadê a Keiko?

O nome da mãe morta ecoa no apartamento como um fantasma que se recusa a sair. Ayumi limpa a mesa com movimentos bruscos.

— Ela não está aqui.

O avô murmura algo sobre trens atrasados e estações erradas. Ayumi pega o dicionário da estante - seu refúgio nos dias em que as palavras do avô doem demais. O marca-página ainda está no mesmo lugar.

"...margem..."

Ela olha pela janela. Lá embaixo, as pessoas passam apressadas, máscaras cobrindo metade de seus rostos. Todos parecem saber para onde vão. Todos menos ela, presa nesse apartamento que cheira a remédios e saudade, cuidando de um homem que já não sabe quem ela é.

O telefone vibra. É uma mensagem de Haru, seu único amigo que ainda insiste em contato:

"E aí, quando vamos tomar aquele café?"

Ayumi digita e apaga três respostas diferentes antes de fechar o aplicativo. Tudo parece tão distante agora - os amigos, os planos, a vida que ela imaginava ter. Ela virou um personagem secundário na própria história.

No quarto, o avô chora baixinho. Ayumi fecha os olhos e conta até dez. Quando abre, pega o caderno de viagens dele e escreve na última página:

"Estações que nunca chegamos:
1. Felicidade
2. Esquecimento
3. Eu mesma"

O sol da manhã entra pela janela, iluminando o pó que dança no ar. Ayumi respira fundo e vai até o quarto do avô. Ele olha para ela, os olhos vermelhos e assustados.

— O trem já partiu? — pergunta, voz trêmula.

Ayumi senta na cama dele e pega sua mão ossuda.

— Ainda não, vô. Ainda não.

E por um momento, mentir parece menos doloroso que a verdade.


segunda-feira, 10 de março de 2025

Metáfora

O Homem, é uma mistura quase homogênea de cansaço, sofrimento e dor. Mas é quase mesmo, como se no meio do processo aquilo que o misturava de repente houvesse se cansado.

Todo dia o Homem cumpre um ritual. O trajeto até o templo, seu mundo na sacola. Senta no mesmo lugar, todas as vezes. 

Todo dia.

Numa repetição eterna, essa sinfonia da vida é um disco riscado que pula sobre um mesmo trecho infinitas vezes.

Desafinada.

O Homem chama a atenção por cheirar mal, as pessoas o desviam. Um download de arquivo corrompido, um Malware inócuo. Um jovem sempre repara nele, "Porra, de novo?". Não se sabe o que se deteriora mais rápido, se é o Homem ou se é o ambiente que cuida ser perpétuo.

Uma efêmera permanência metafórica de uma cena que se reproduz todos os dias, em cada um de nós.





terça-feira, 25 de julho de 2023

Não era peso o que eu sentia

Não era peso o que eu sentia. Era algo mais, algo que me forçava a parar com aquilo. Mas ele estava ali, parado, inerte, no canto do quarto, olhando pra parede. "Que tinha feito eu?" certeza que tava pensando. Nunca vou me esquecer daquele dia. Nunca vou me esquecer dessa hora. Lá fora a chuva caia suavemente, e o som das gotas batendo calha, ao invés da calma, ansiedade. Não era peso o que eu sentia, não era peso o que eu sentia...

quinta-feira, 16 de março de 2023

Run Joker, Run!

  Esses dias vi uma postagem no Twitter de uma filmagem dos bastidores da gravação da sequência de Coringa, provavelmente algo gravado às escondidas, de um ponto alto, muitos metros do chão. Na cena que se desenrola na rua, é possível ver o personagem de Joaquim Phoenix saindo de dentro de um carro parado no congestionamento, e alguns metros atrás dele uma figura que num primeiro olhar, já ficamos cientes de ser a própria representação caricata do Coringa que conhecemos. O que se segue é uma perseguição: Arthur num desespero frenético, trombando pelos carros e alguém que abre a porta repentinamente, até alcançar o semáforo e não ser atropelado por muito pouco. Seu algoz passa longe de alcançá-lo, porém se prestamos atenção somente à ele, o identificamos de cara: É o Coringa. Não pelas cores do paletó, mas pela forma em que corre mesmo que perseguindo, ainda parece fugir. É impossível não sentir a semelhança daquela cena que Arthur sai do metrô e vai até o banheiro. Na verdade, é muito mais latente do que uma mera semelhança: é uma cena que se repete num outro espectro da natureza doentia das duas situações, e acredito que isso deva ser em parte a intenção do diretor de causar essa sensação no espectador. Lembro que assim que vi, comentei com um amigo meu o quanto aquela "corrida desvairada" do Coringa era icônica, o quanto era característica e isso me surpreendeu muito, na verdade, o simples fato de eu ver um corte de alguns segundos e me remeter a uma reflexão sobre o quanto o filme original foi (e é!) carregado de mensagens, avisos, provocações, ora implícitas, ora explícitas, ora táteis. É sublime! 
  E confesso que sinto um certo receio á uma continuação, tanto pela ordem natural das continuações quanto pela expectativa que vem se criando em cima do todo, mas eu desejo sinceramente que consigam reproduzir algo respeitável. Eu até demorei mais do que deveria para escrever essas poucas linhas, mas eu acredito que o raciocínio não se perdeu, pelo contrário. E eu vou dormir que já passou da hora.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Pedro foi

Era um daqueles dias ensolarados comuns, em que ele não queria saber de nada. Nem ele nem ninguém na mesma idade até então. Só queria soltar pipa. A vida se resumia à esses intervalos de tempo em que ninguém percebia, mas era como a areia que escorre entre os dedos. E ainda é. Grande pequeno homem, não percebeu quando de repente se viu adulto e contas não paravam de chegar. Se lembrou do dia que estivera na escola, no último dia de aula e disse pros amigos “sentiremos saudade disso aqui”, que riram e caçoaram da cara dele. Pois bem todos sentiam, e as lembranças faziam parte da prece diária do ritmo frenético entre casa-trabalho-faculdade que enfrentava já alguns anos e tinha a leve sensação de que seria para todo o sempre. Sentia que vivia mais no metrô do que na própria casa. Sempre recebendo um hóspede novo de tempos em tempos, e que logo se tornava habitual depois de um ou dois dias. Essas viagens longas, ainda que não fossem viagens no sentido de lazer, sempre o faziam refletir. Hoje, se lembrou do dia em que era criança e de como sentiu medo, com os amigos provocando um boi jogando pedrinhas no lombo do animal. Atrás, a cerca toda emaranhada de arames farpados, quase indistinguível do mato alto do terreno. Á frente, um enorme pasto que se tornava minúsculo frente à imponência do boi. Deu risada, que chamou a atenção de uma senhora sentada a sua frente. “Certeza que me acha doido. Mas... quem não?”. Os alto-falantes chiam e por eles sai uma voz de timbre grave, feminina: “... Próxima estação: Jabaquara...” e Pedro segue o rito: suspira, olha as horas no relógio de pulso, e pensa “Bora, vai...”

domingo, 1 de janeiro de 2023

Feliz Ano Novo!!!

 Mais um ano se passou e aquela lista de metas, algumas concluídas, outras pela metade, e a maioria sem finalizar nem começar só tende a crescer. Mais um ano para refletirmos sobre nossas vidas e incertezas que pairam sobre nossas escolhas. Mais um ano para provar do gosto doce dos momentos alegres e a vida dura do trabalho diário. Mais um ano para nos encontrarmos, nos bares e mares da vida, por onde a maré nos levar. Mais um ano para fazermos aquilo em que somos profissionais natos e altamente treinados: Errar! Pois do que consiste a vida, meus amigos, senão de tentativa e erro? Do que consiste o sucesso senão de uma série de erros categoricamente sequenciados de modo que se aprimore o dito Objeto do sucesso? Errar, no sentido da palavra expressa alguém que vaga sem destino, sem direção, sem Norte.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

 Assim que comecei a ler Todo dia a mesma noite, de Daniela Arbex, a primeira impressão que me causou foi a pessoalidade da tragédia. Eu só não sabia para onde isso iria me levar, se é que eu esperava ser transportado à algum lugar. Verdade é que estamos de certa forma acostumados à tragédia, tanto pela frequência em que acontecem diariamente, tanto pelo uso excessivo dos veículos midiáticos em cima destes fatos e demais pormenores de assuntos que todos (ao menos, em tese) concordam que deveriam ser respeitados e que não dizem respeito ao grande público em geral.

Quando somos tomados por notícias trágicas, cada indivíduo reage de uma forma pessoal, cada um com sua sensibilidade, cada qual com a sua empatia. Quanto mais perto da nossa convivência diária (tanto geograficamente, como afetivamente) for o fato trágico, mais tendemos a nos sensibilizar, mais seremos por ela afetados. E é justamente isso que a autora faz conosco, que numa narrativa não linear, nos apresenta histórias de diversas famílias que tiveram suas vidas transformadas de tal forma que é impossível se dissociá-las do evento. Não só das 242 vítimas fatais, mas de seus familiares, as equipes de resgate, corpo de bombeiros, os médicos, enfim, toda uma comunidade. 

Arbex nos mostra como uma cadeia de negligências cometidas por diversas pessoas, órgãos e entidades somaram uma estrutura propícia para o desastre, uma ramificações de acontecimentos que no funcionaram como um efeito dominó. Todo dia a mesma noite relata um dos mais trágicos episódios ocorridos em território nacional do qual não podemos nos esquecer jamais.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Um poema escrito no dia 13/11/2022, num acesso de inspiração qualquer. O título, se foi.

Certa como flecha, era uma brecha na fissura da figura imponente. Crente de sua ira, a fúria a consumia noite e dia, noite e dia...

Não podia desde então, dizer que não ligava, fazer que não sentia. Simplesmente não podia. Cansada de fingir, era só questão de tempo, lento como o passar do dia o alento viria.

E veio! Cheio daquela paz que traz consigo um sopro de tranquilidade, um fio de esperança em meio ao caos da cidade.


 


quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

É, é um blog...

  E o que seria um blog se não um mural onde colocamos diversas coisas, desde lamentações até conteúdo estritamente técnico? Na verdade, isso nos leva à uma reflexão mais profunda do termo “expressar”. E a ideia de criar esse blog surgiu da mais pura e simples necessidade da escrita. Do exercício da junção das palavras e também por que não do exercício da liberdade de expressão, análise e reflexão de tudo o que nos rodeia e afeta direta ou indiretamente. Pois bem, meus caros leitores: O ano é 2022, ano de eleição, ano de Copa do Mundo de futebol e o mês é Dezembro. O país enfrenta um período de pós-eleição marcado por manifestações contrárias ao resultado das urnas, e o mundo assiste à uma Copa sediada em um país com cultura e costumes muito diferente dos países ocidentais. Os canais de televisão dão lugar às plataformas de Streaming, e as redes sociais fazem o papel de microfone particular de cada indivíduo indivisível nesse oceano extenso que é a Internet.