periférico
adjetivo
1.relativo à
periferia.
2.que se situa na periferia.
"bairros p."
3.anatomia geral
que está mais distante ou
afastado do centro do corpo (p.ex., o sistema nervoso periférico).
4.anatomia botânica
que envolve e oculta o embrião
(diz-se de perisperma).
5.substantivo masculino
informática
dispositivo ou conjunto de dispositivos que não integra a unidade central de processamento (p. ex., uma unidade de disco flexível, uma impressora etc.); equipamento periférico.
"É o tédio que me consome", pensa Ayumi,
numa tarde quente de dezembro, quando ainda acreditava que 2020 seria o seu ano
– a emancipação de um sonho recente, a independência mesclada ao poder de ser e
fazer ser, sentir, ir e vir. Coisas corriqueiras do passado eram agora uma
realidade à parte. "Quando tudo isso passar", dizem
todos. "Vamos marcar algo para quando isso tudo passar", "Quando
tudo isso passar, vamos viajar, vamos dar mega baladas..."
Mas o tempo é duro e mole como a ordem de alguém que só quer
o seu bem – um pedido que vem daqueles que queremos sempre perto, mesmo quando
eles já não sabem quem somos. E nós queremos. Ah, como queremos...
Ayumi fecha o dicionário com um baque surdo, mal disfarçando
a irritação, o arrependimento quase instantâneo... O avô a chamava pela décima
terceira vez em trinta minutos, suas sinapses corroídas pelo Alzheimer, no alto
da impaciência dos seus 80 e tantos anos. O apartamento, pequeno, parece imenso
nessas horas – um labirinto de silêncios e ausências. O ar parou. O mundo lá
fora parece ter engasgado.
Ela tenta se lembrar de quando era pequena e o avô voltava
das viagens à Taiwan com sacos de presentes baratos e cheios de brilho –
bonecas de plástico, relógios falsos, coisas que ela amava não pelo valor, mas
pelo gesto. Agora, décadas depois, tudo parece ter passado num estalo – quatro
chicotadas no escuro, deixando cicatrizes com queloides que não param de
crescer.
— Menina! — a voz dele vem arrastada,
áspera, como se estivesse chamando por alguém que não está mais ali.
Ayumi suspira, levantando-se devagar. O chão está frio sob
seus pés descalços. Entre a mesa e a poltrona do avô, há um vazio que cresce a
cada dia – um abismo de coisas não ditas, de histórias que ele já não consegue
contar.
— O que foi, vô? — pergunta, ajustando o
cobertor sobre seus joelhos trêmulos.
Ele olha para ela sem reconhecimento, os dedos inquietos
sobre um caderno gasto – um diário de viagens que ele mesmo escreveu, mas que
agora é apenas um objeto estranho em suas mãos.
— Cadê o trem? — ele insiste, os olhos
vidrados. — Preciso voltar.
Voltar. A palavra queima. Todo mundo quer voltar
– a um tempo sem máscaras, a beijos roubados em festas, a planos que não
precisavam ser sussurrados como segredos. Mas o avô quer voltar para um lugar
que talvez nunca tenha existido, ou que exista apenas nos fragmentos de uma
memória que escorre pelos dedos.
— Já chegamos — ela mente, apontando para a
janela, onde o céu escurece em tons de púrpura e ferrugem.
Ele franze a testa, mas acena, cansado de lutar contra a
névoa que lhe rouba o passado.
À noite, quando ele finalmente dorme, Ayumi abre o
dicionário novamente. Periférico: que está à margem, distante do
centro. Ela pensa no ano que a deixou à deriva, nas promessas que
viraram pó, no avô que desaparece um pouco a cada dia. E, no caderno dele,
entre páginas de destinos esquecidos, ela escreve:
"2021 não precisa ser o centro. Só não pode me
deixar tão longe de mim outra vez."
O despertador toca às 6:17 da manhã, como sempre. Ayumi abre
os olhos antes mesmo do bip final - seu corpo já não precisa do som para saber
que outro dia começou. O mesmo. Sempre o mesmo.
Ela rola na cama e encara o teto. Há uma rachadura no gesso
que parece crescer um pouco a cada dia, como se o apartamento também estivesse
cedendo ao peso do tempo. Do quarto ao lado, o avô ressona em ritmo irregular.
Um dia, ele vai acordar e não vai mais respirar. Essa ideia deveria assustá-la,
mas hoje só parece mais uma verdade cansada.
No banheiro, a água gelada do chuveiro a faz cerrar os
dentes. "Isso acorda", ela pensa, enquanto esfrega a pele
até ficar vermelha. Mas nada realmente acorda - nem o café amargo, nem o avô que agora a chama de "mãe" quando
confunde os dias.
— Você não é a minha filha? — ele pergunta, numa nova confusão, os olhos úmidos
e perdidos.
Ayumi engole o gole de café que queima sua língua.
— Sou a Ayumi, vô. Sua neta.
Ele balança a cabeça, frustrado.
— Não, não... você é a Keiko. Cadê a Keiko?
O nome da mãe morta ecoa no apartamento como um fantasma que
se recusa a sair. Ayumi limpa a mesa com movimentos bruscos.
— Ela não está aqui.
O avô murmura algo sobre trens atrasados e estações erradas.
Ayumi pega o dicionário da estante - seu refúgio nos dias em que as palavras do
avô doem demais. O marca-página ainda está no mesmo lugar.
"...margem..."
Ela olha pela janela. Lá embaixo, as pessoas passam
apressadas, máscaras cobrindo metade de seus rostos. Todos parecem saber para
onde vão. Todos menos ela, presa nesse apartamento que cheira a remédios e
saudade, cuidando de um homem que já não sabe quem ela é.
O telefone vibra. É uma mensagem de Haru, seu único amigo
que ainda insiste em contato:
"E aí, quando vamos tomar aquele café?"
Ayumi digita e apaga três respostas diferentes antes de
fechar o aplicativo. Tudo parece tão distante agora - os amigos, os planos, a
vida que ela imaginava ter. Ela virou um personagem secundário na própria
história.
No quarto, o avô chora baixinho. Ayumi fecha os olhos e
conta até dez. Quando abre, pega o caderno de viagens dele e escreve na última
página:
"Estações que nunca chegamos:
1. Felicidade
2. Esquecimento
3. Eu mesma"
O sol da manhã entra pela janela, iluminando o pó que dança
no ar. Ayumi respira fundo e vai até o quarto do avô. Ele olha para ela, os
olhos vermelhos e assustados.
— O trem já partiu? — pergunta, voz trêmula.
Ayumi senta na cama dele e pega sua mão ossuda.
— Ainda não, vô. Ainda não.
E por um momento, mentir parece menos doloroso que a
verdade.
